Manufacturas do al-Andalus

2007 .. 2015

dedicatória

Dedico todo o meu trabalho,
com infinita gratidão e alegria,
ao meu marido Franklin,
pelo seu conhecimento, amor e generosidade.

- Ana Caldas
Entre 2003 e 2006, vi-me envolvida pela estética e simbologia islâmica que me foram encantando. Primeiro motivada pelas inúmeras viagens de investigação ao sul ibérico do Franklin e, depois embebida nesses lugares mágicos carregados de memórias e História, comecei a senti-los e a vivê-los como fonte de conhecimento, beleza e paz. 
Juntei o prazer, o interesse histórico e cultural, a arte e o saber fazer como fonte de inspiração.

Em 2007 abri o atelier e enlaço-me na minha criatividade; começo a pesquisar e investigar as fontes visuais a partir de um legado muito pouco conhecido. No início, as primeiras criações vão inspirar-se nos 500 anos da presença árabe no Gharb al-Andalus, no esplendor desta civilização que deixou marcas profundas nas artes e no pensamento português; partilhei os poetas ibero-muçulmanos e de linhagem sufi nas minhas criações; relacionei arte, património e ornamento.

Ao criar elementos inspirados na iconografia ibero-muçulmana, com todas as confluências artísticas e culturais da época, o meu trabalho foi regenerar-se nos motivos arcaicos passados entre civilizações e culturas, no encantamento das formas poéticas e femininas, dos florais, arquitectura e geometria, tentando compreender os elos de ligação entre Ocidente e Oriente, entre passado e presente, deixando em cada peça mensagens de Universalidade.

Fui bolseira da Fundação Oriente em 2008, e o cruzamento de experiências e a riqueza da abundante criação da Índia, que também imana da fusão hindu-muçulmana, fez-me repensar o meu trabalho como joalheira, permitindo-me avançar numa rede de relações estéticas e simbólicas. 
Em 2010, viajámos à Turquia e Síria. Atravessámos o grande Mar Mediterrâneo e a larga panóplia de estéticas antigas expandiu a outros mundos, emergindo universos e formas já pensadas anteriormente, mas agora mais carregadas de significado: os colares-relicário e os colares/caixas-relicário tornaram-se os condensadores de metáforas de espaços sagrados. 

Os anéis, que só nesse ano realizei, absorveram espaços de fruição e contemplação amorosa e poética dos “diwans”, espaços devotados à leitura, declamação e recitais, presentes nas culturas mediterrânicas e orientais.

Todas as peças - em prata, pedras preciosas, sementes sagradas, rosários, sedas, florais, pássaros, arabescos, caligrafia, a ideia e a visão - fundiram-se numa espécie de cadinho mental, tornando-se como um microcosmos a proclamar o corpo como uma palete e suporte de ideais. E o corpo, assim ornamentado, levou-me a considerar o rico património material e imaterial da Humanidade, entrelaçando-se com os ideais de Beleza, Paz e Harmonia, ideais que estiveram sempre presentes desde o início da minha criação.

Em 2011, a jóia volta a ganhar significado e simbolismo, procurando no meio desta encruzilhada de emoções e memórias, contribuir para um mundo melhor, com mais tolerância e mais respeito pelo "Outro".

De 2012 a 2014 dediquei-me a conceber a jóia como auto-conhecimento, depuração e revelação de caminhos, objecto de contemplação e fruição espiritual, invocando e apelando à Luz.

As Manufacturas do al-Andalus chegaram ao seu termo, com a realização da última exposição, na Biblioteca de Silves, em Agosto de 2015.

O meu coração abriu-se a todas as formas

2005 - a primeira peça

O meu coração está aberto a todas as formas:
É uma pastagem para as gazelas,
É um claustro para os monges cristãos,
Um templo para os ídolos,
A Caaba do peregrino,
As tábuas da Tora,
E o livro do Corão.
Professo a religião do amor;
Qualquer que seja a direcção em que as caravanas avancem,
A religião do amor será o meu credo e a minha fé

- Ibn al-Arabi (Múrcia, 1165-Damasco, 1240)
Inspirada pela poesia de carácter amoroso, dos poetas ibéricos de linhagem Sufi, criei esta caixa-relicário “O meu coração abriu-se a todas as formas” numa homenagem a Ibn al-Arabi, poeta místico, nascido em Murcia em 1165 e falecido em Damasco em 1240. No interior, impresso em papel, contem o poema de Ibn al-Arabi em árabe e português, que transcrevo. A forma orientalizante da caixa/relicário contempla a flor de quatro pétalas, o ornamento central da caixa, que viajou por várias estéticas e materiais, encontrada numa túnica de Cristo, em pintura mural de Córdova, de 1351.

Colecções

“A poesia do al-Andalus é um cântico à natureza, aos jardins e às flores, ao Amor,
aos desejos, às águas agitadas ou adormecidas, aos animais e às estações.
Estas foram as fontes da minha inspiração - portadoras de ideais de Beleza e Paz -
difundindo e reforçando os valores simbólicos e espirituais do nosso património cultural. 

- Ana Caldas

Tesouro Ibérico

Caixa Relicário
Prata, couro e ágata

Peça adquirida por coleccionador particular.

Esta peça foi inspirada na linhagem dos Morábitos existentes em Portugal e retoma o polígono estrelado de doze pontas sob o qual se ergue um Morábito; sob a porta de entrada principal do Morábito encontra-se o primeiro verso, em árabe, de um poema de Ibn al Arabi (Múrcia,1165-Damasco,1240) e sob a outra porta está a sua tradução: “O meu coração abriu-se a todas as formas”.

A caixa em couro funciona como se de um relicário se tratasse, cujas aplicações em prata se inspiram na arquitectura islâmica. Compreender estes Moraditos no contexto do al-Andalus foi um dos meus caminhos para a materialização desta peça.
A palavra Morábito deriva do árabe morabit, que designa ermitão. A pequena construção de forma geralmente cúbica (embora por vezes possa assumir uma planta redonda, octogonal ou hexagonal, mas sempre centralizada), tem cobertura em meia-esfera, muitas vezes designada por cuba (Kuba).

Os morábitos podem confundir-se com as cubas, das quais pouco ou nada diferem, sendo certo que os morábitos se destinavam à morada de um ermitão, enquanto por definição, as cubas constituíam lugares de veneração dos restos mortais de um santo (o marabu ou marabuto). Os marabus, a maior parte das vezes, foram eremitas ou mestres sufis, ou seja, ascetas e místicos que se dedicaram à meditação e à doutrina esotérica e gnóstica do Islão.   

Em nome do amor

Alfinete/Pregadeira
Prata, circuitos electrónicos e labradorite

Peça seleccionada para participar na exposição colectiva e internacional integrada no projecto I CARE A LOT/Portable Middle East Discussion, iniciada na Alemanha e em itinerância pela Suécia e Portugal.

Um ponto inicial de inspiração foi o conflito Israel-Palestina onde no mesmo território estimado pelas três religiões monoteístas há violência e falta do Sagrado, tantas vezes esquecido e profanado em nome de Deus.

A forma octogonal foi inspirada na planta da Cúpula do Rochedo, em Jerusalém. A gravação da prata com o poema “O meu coração está aberto a todas as formas”, de Ibn al-Arabi – um poeta Sufi nascido no al-Andalus no séc. XII, e com o seu túmulo em Damasco –, é uma evocação da qualidade
abarcadora do Amor, que não nega caminhos; é relembrado pela incrustação da pedra preciosa. 

Um dos octógonos representa a corrente, sempre a fluir, que acompanha a sociedade com conhecimento e mente aberta; no outro, os circuitos electrónicos são como os caminhos do ser humano, caminhos esses operativos num mundo cheio de tecnologia.

Sem os valores da Religião do Amor, sempre fluindo – que eu represento pela pequena roda de prata com arabescos – todo o desenvolvimento tecnológico não faz sentido e não tem alma. Esta peça é uma mensagem de simbiose de dois mundos, não de costas voltadas, mas convergindo para um objectivo comum de Conhecimento e convivência.  

Épilogo

uma espiral contínua

Todas as peças realizadas são únicas e foram desenhadas e
manufacturadas por mim, no meu atelier em Braga, utilizando técnicas ancestrais e contemporâneas da Joalharia. Foi um ciclo de 8 anos de criação contínua, em que projectei, relacionei e integrei o que sentia ser fundamental transmitir e expressar ao mundo; activei
uma rede de relações, significados e conhecimentos, reforçando micro/macro mundos de ideais e valores fundamentais para o futuro. O que faço pode continuar a ser irrelevante para o mundo, mas não o é para aquele que cria e por isso ter todas as hipóteses de permanecer um trabalho genuíno. É o triunfo da alma e do espírito que sentem o sublime.

Grata à Vida!